quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Não governo para eleições

falta de sensibilidade social marca o mandato que ora finaliza, mesmo com todas as atenuantes do resgate. Estamos a avaliar este mandato, o outro já foi, o momento e os personagens. Passos fez da discórdia entre portugueses um método para implementar reformas duvidosas na aflição de cortar despesa. Do que disse e do que realmente fez nasceu o reconhecimento de mentiroso em sondagem.

O descrédito da palavra tem consequências pois é com ela que se comunica, ainda assim, a verdadeira campanha eleitoral é de 4 anos de acções e desaforos. A tentativa do “ou eu ou o caos” não funciona, os eleitores perderam demais, muitas vidas estão irreparáveis e agora não sentem medo. O discurso emotivo também não funciona a paredes-meias com a injustiça, o coração é cada vez mais de pedra, até nos doces grisalhos. Imagino o eco que encontra o discurso do trabalho feito, que deve ser recompensado, sobretudo nos funcionários públicos onde nem na carreira encontram alento. Resta saber o grau de desânimo que leva à abstenção, contando que Passos neutralizou muitos votos, claramente contra, com o “emigrem”.

Foto de Justin Russo/ Solent News
Como aqui chegámos? Passos deslocou o PSD da social-democracia para um neo-liberalismo obtuso, por convicção e na excelente oportunidade oferecida pela Troika para concretizar o seu ideário e, foi mais além, de forma desumana com o preciosismo das folgas orçamentais. A austeridade não foi um contratempo político, antes um pretexto muito a gosto. Por isso não há passo sem confusão nesta campanha que já deu lugar à desembestada. Acabar com a classe média serena é semear um país ingovernável.

O povo não deseja a ilusão “naïve” do Syriza mas gosta de confiança e esperança, de vida, um rumo para pagar sem deixar de viver. Temos uma economia dizimada e, para além do verdadeiro desemprego e da simulação do contrário, 900.000 empregos estão em 20% das empresas nacionais em dificuldades. Estamos sem anéis para uma próxima crise e não se entende a falta de coragem para ousar. Tivemos uma equipa governativa que não tentou alternativas, não moldou o guião de outros interesses mantendo o inevitável. A criatividade é bem-vinda num país tão vigiado pelas instituições europeias e financeiras. Qual o risco e quem vai votar?

Passos eliminou a crença na supremacia da acção política em favor da supremacia da acção financeira e deixou a economia para segundo plano. Assim não se paga, troca-se e acumula-se empréstimos, dívida. Provocou uma grave crise de identidade até entre os militantes e simpatizantes social-democratas. Com a saúde, a segurança social e as reformas também eles hesitam. Passos não entende que se respeitar a ideologia do PSD, haverá um capital de confiança e um eleitorado fixo, independentemente das qualidades ou não do líder.

O PSD precisa de orientação política. O desnorte nos argumentos, onde Passos se emaranha com explicações e perde, é sintoma das decisões avulsas de outros.

Com este quadro, Passos elaborou listas onde os candidatos tacitamente se comprometem a renunciar ao mandato se divergirem das orientações do PSD nas votações da A.R (Conselho Nacional 10 Julho 2015). Não sendo imposição, sabemos bem o que significa. Perdeu-se a noção da representatividade dos eleitores, basta que seja definido pelo futuro Grupo Parlamentar. Com esta predisposição, ter experiência em coligação será um desalinho certo quando já não enfiaram o Barreto. Assim nasce a mordaça dos lobbies. Vamos votar para aniquilar a democracia representativa? Facilitando quem não respeita a Constituição? Não se deve abrir precedentes. Política sem liberdade será um despotismo insuportável. Vamos de autonomia cambada para vergada e sem opinião na A.R.? Quiçá com 4 ou 5 deputados com voto condicionado? Imiscuir mais Passos nas decisões que a autonomia nos confere é enfiar-se num colete-de-forças que já foi provado.

Os portugueses deixaram de escolher um candidato para lhes dar uma solução global, essa é a via do arrependimento. Votam cirurgicamente, em consciência e não toleram armadilhas.

Cirurgicamente? Se as sondagens irritam, trocam as voltas pois as suas vidas não são de certezas. Se o banco lhes foi desonesto, votam na Mariana para sentir o prazer de trucidar o salpresado mas espreitando o aguenta-aguenta. O ar impávido de Passos vai além da verdade? Votam na Catarina, porque faz roçar os dentes. Levam as regalias sociais básicas, aplicam o camarada Jerónimo. O Tribunal Constitucional safa algumas regalias? Distribuem a votação para evitar uma maioria de 2/3 no arco da governação e a consequente revisão constitucional. Detectam candidatos que vão representar lobbies? Afundam-lhes a votação. Alguns até votam no Passos, desde que o Pacheco e a Ferreira Leite passem o dia a rachar lenha.


“Somos um partido de esquerda não marxista e continuaremos a sê-lo.”
Palavras de Sá Carneiro, em 1975, convicto de que o fim da política residia na pessoa humana. Os argumentos do actual PSD estão a deixar este espaço vago, por isso o PSD tenta coligado quando antes era possível só.
Sem paz, pão, POVO e liberdade, Portugal não existe e o PSD também não. O povo anda à procura de humanidade na esquerda, não importa se marxista. Afinal governar para eleições faz todo o sentido e ir votar também.

Quem estima ser sucedâneo deve aprender com a ante-estreia.


Diário de Notícias do Funchal
Data: 24-09-2015
Página: 10
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terça-feira, 1 de setembro de 2015

Adeus paquete Funchal

ssustou-se? Sinal de que ainda respeita os símbolos nacionais não elegíveis para o Panteão Nacional, por relevantes serviços prestados ao país. Estamos no limiar, o colega Lisboa foi desmantelado.

Há 54 anos que invocam o nome da capital da Madeira para identificar o último paquete da época áurea do transporte marítimo de passageiros em Portugal. Este ícone nunca mudou de nome e teve vivências excepcionais. Não sendo proprietária ou armador, a Madeira, por via desta estreita ligação, não se deve colocar alheia ao impasse que imobilizou o paquete após o último cruzeiro à passagem de ano na Madeira.

O paquete, a torre da Sé e a torre da C.M.F, ícones do Funchal. Foto de Luís Fernandes.
A ordem de construção do Funchal data de 1959, pela empresa Insulana de Navegação, aos estaleiros navais de Helsingør Skipsværft que deram forma ao projecto de Rogério de Oliveira. 2 anos depois estava construído o maior navio daqueles estaleiros dinamarqueses. Serviu nos primeiros anos nas ligações entre Lisboa, Açores, Madeira e Canárias, integrado numa frota constituída por mais de duas dezenas de navios, onde se destacavam o Infante Dom Henrique, o Santa Maria, o Vera Cruz e o Príncipe Perfeito.

A idade do paquete Funchal e as exigências do “Safety of Life at Sea”, para que possa navegar em cruzeiros, limitam-no mas, o facto preponderante, em boa consciência, é de que todos gostam, veneram e publicam fotos mas, quando chega à hora de escolher um cruzeiro optam por outro navio, condicionados pelo marketing do maior, do novo, mais atraente ou inovador. Esquecem-se dos clássicos. Foi um grego, George Potamianos, que salvou o paquete uma vez. Quando será a vez dos portugueses sem Passos em falso?

O paquete Funchal e a cidade que lhe deu o nome. Foto de Luís Fernandes.
Se Portugal quer acreditar na sua vocação marítima, realizando em vez de invocar os já enervantes clusters do mar ou economia azul, vai ter de deixar a verborreia. Precisamos de pragmatismo e resultados.

Vivemos tempos difíceis, onde melhor se definem os bons, os regulares e os maus governantes, pressupondo que não há estadistas. A nossa ilha gastou 100 milhões numa marina que não existe, pode-se redimir com um enquadramento legal rentável, mesmo com outras prioridades financeiras, para facilitar uma solução privada ao paquete. O Funchal é amigo de “todos”, um “crownfunding” pode ajudar, encaminhar os descontos no IRS também. Criar soluções que mantenham o Funchal e produzam receita para o(s) investidor(es) são os desafios.

Nem tudo é repto, um grande trunfo reside na profunda renovação efectuada ao navio há relativamente pouco tempo, para além de ter um justo tamanho para ser explorado na Madeira. A sua recuperação custou 20 milhões de euros e está à venda por 18 milhões. Por este caminho, imobilização, desvaloriza-se até um sucateiro lhe deitar a mão. Outros navios, com uma segunda vida, foram recuperados de situações bem piores. Foram necessárias grandes campanhas durante anos para salvá-los. As principais referências vão para o Queen Mary, o Rotterdam V, o Kristina Regina (Bore), em exploração, havendo ainda os casos do Queen Elizabeth 2 e o United States, imobilizados, entre outros de menor dimensão.

Paquete Funchal a 31 de Dezembro de 2014, prestes a fundear. Foto de Luís Fernandes.
Sabendo das intenções em avançar com uma unidade hoteleira para o Cais Norte, a Madeira poderia reconverter os planos e trazer o paquete Funchal à nossa cidade para servir de hotel multifuncional (alojamento, museu vivo, eventos e visitas) numa estrutura fixa dentro de água, demonstrando ao país que sabe preservar o património, a história e a cultura, até porque por aí tem futuro a explorar. Visite estes exemplos: www.msborea.fi, www.ssrotterdam.com.

Brasão do Funchal na proa do paquete. Foto de Luís Fernandes.
A cidade do Funchal, com o seu paquete, poderia juntar sinergias com outras cidades nas mesmas circunstâncias, promovendo um circuito mundial que satisfaça um novo nicho de mercado.

A Madeira já tem notoriedade para clássicos, basta observar a importante colecção de automóveis, com alguns em circulação para serviços de charme. As quintas madeirenses, os museus, as igrejas, o vinho, um Madeira Story Center e uma “Esquina do Mundo” recuperadas, entre outros como os carros de cesto do Monte e porque não os de bois, poderão compor uma viagem no tempo, criando diferenciação ao nosso turismo. O paquete Funchal pode ser mais um componente do bom sabor dos velhos tempos.

Estão avisados, não adormeçam.


Fotos: no DN e no blog, da autoria de Luís Fernandes, ao qual agradeço a pronta colaboração.
Diário de Notícias do Funchal
Data: 01-09-2015
Página: 11
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Temulência na APRAM

stamos no período do ano com menos escalas de cruzeiros no Funchal. Não pertencemos a qualquer temporada, nem de Verão nem de Inverno, em circuitos permanentes ou alternados, salvo excepções. A redução de 75% da TUP para os cruzeiros, de 1 de Junho a 31 de Agosto, não surte efeito pois a maior rentabilidade dos itinerários alternativos não está provada. Não motivamos a montante com quem desenha os itinerários. Satisfaz-nos os números das épocas de transição de temporada, uma procissão para outros destinos com menos passageiros. Este mês de Julho, com 4 navios em 31 dias, é celebrado como o melhor de sempre, talvez para esquecer o Cuba 9 – Madeira 0, com a perca das escalas do MSC Opera.

A beleza da Madeira e as suas atracções não são consideradas para frequentar o destino, caso contrário haveria, por exemplo, uma maior afluência na Festa da Flor, época alta de cruzeiros. Os navios partem sem que os passageiros assistam ao cortejo.

Valemos pela localização geográfica nas travessias Atlânticas ou como adição a um itinerário dirigido às Canárias. Excepção feita à Passagem de Ano.

O Funchal, com oscilações residuais, que derivam da crescente dimensão dos navios, está estagnado. O crescimento da indústria de cruzeiros reflecte-se directamente nos concorrentes. Temos cruzeiros que vão às Canárias (Las Palmas cresceu 12%) sem escalas no Funchal e travessias Atlânticas que preferem Ponta Delgada (cresceu 70,7%).

A notoriedade histórica da Madeira provém da emigração, do vinho ou das viagens anuais de lazer. Produziram factos e atraíram gente famosa. Não temos um calendário de efemérides que mantenha o Porto do Funchal em difusão gratuita. É necessário trazer o saudosismo, promover a curiosidade e estabelecer a preferência.

Na era do excesso de informação, primamos pela ausência na área dos portos, não se vislumbra uma publicação em órgãos da especialidade, nem se explora a internet. A presença em eventos é imperceptível, na feira de Miami, coloca-se um expositor estático, sem contactos pessoais ou informação útil. Estamos entregues aos spotters nas redes sociais, pela qualidade fotográfica. Ainda assim, são tratados com estupidez porque “alguém” acha que perturbam a segurança. Seguro é o ritmo do bocejo, do café prolongado ou das ameaças, com vias de facto, àqueles que ousam se indignar.

A APRAM nunca fez uma aposta séria nos cruzeiros de expedição, pensando sobretudo nas Selvagens e nas Desertas mas, contemplando o restante arquipélago. É um nicho de mercado para navios pequenos, preparados para todo tipo de desembarques e com boa clientela que procura a observação da vida selvagem em locais recônditos.

Não se atende à necessidade de definir um cais de operação, sem limitações, para o ferry ou ferrys. A área destinada à movimentação de veículos e passageiros é exígua e conflituosa, como provamos todos os dias e nos lembramos dos diferendos no passado com dois operadores.


A interpretação e aplicação do “International Ship and Port Facility Security Code” é excessiva, obsessiva e fomenta a falta de competitividade do nosso porto. Basta ser cruzeirista e comparar com outros destinos. Esta obsessão de segurança roça a paródia quando se permite que qualquer pessoa mal intencionada vá aos trolleys da PSL colocar uma “encomenda” e ir, calmamente, ver a partida desde um miradouro.

Existe uma reserva “natural” de gaivotas no porto porque destruíram o movimento permanente com a inexistência de actividades, visitas ou comércio.

Na gare, os passageiros não circulam pelas mangas devido a problemas técnicos desde a montagem, anulando também o movimento no passadiço que tapa toda a vista sobre a cidade. Os passageiros descem directos dos navios para o cais. O investimento findo, em infra-estruturas, rotunda numa regressão.

O nosso porto não dá conforto aos passageiros. Sem comércio conexo, falta o “wireless” livre e as comunicações para as tripulações. Mapas existem, se forem distribuídos. Alguém na APRAM faz cruzeiros?

O asseio no porto deve ser permanente, se surgir norovírus, devido ao guano que vai no calçado para bordo dos navios, haverá averiguações. Se for numa das 9 companhias do Grupo Carnival multiplicará o efeito. Os madeirenses também merecem o asseio.

O senhor secretário da tutela foi uma esperança que se perdeu. Não detectou a urgência em colocar a APRAM a funcionar. Adiou por 2 anos com o mesmo marasmo, somando mais 3 para produzir efeito com uma nova estratégia. Este mandato finou-se, perdemos 5 anos. Tempo é dinheiro, entre os dois, o senhor secretário preferiu poupar no segundo para pagar na mesma com o primeiro. A concorrência progride connosco na salmoura dos interesses instalados e dos afastamentos maldizentes.

É urgente fazer apostas, estamos a ficar para trás.

Diário de Notícias do Funchal
Data: 22-07-2015
Página: 10
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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Reabilitação …dói sempre.

osto de empreendedorismo, em conjuntura sem vícios ou deturpação, com instituições que funcionem ao ritmo empresarial. Não o escolheria para desígnio. Temos que tratar da “saúde” do país para levá-lo ao empreendedorismo. O nosso mercado está a ser ocupado aceleradamente por estrangeiros com melhores condições do que nós portugueses. Poderá vingar o empreendedorismo nacional com a expansão e diversificação das áreas de negócio dos “Vistos Gold” que já se notam?
Empreendedorismo é uma palavra popular no seio da governação, uma visão de promontório com uma panorâmica vasta e livre. Pena estar projectado sobre um“exército” mutilado ou desertor (emigrado), sem capacidade para corresponder. É o resultado de se dizimar a classe média que vê na emigração a solução. Quem faz a ignição com tão altas taxas de emigração e pobreza?

70 a 80% dos portugueses querem “empreender” na emigração, uma das conclusões do estudo da Decoding Global Talent. Se nos cingirmos aos jovens, 94% consideram essa hipótese. 63% dos inquiridos responderam que o fariam em qualquer área ou profissão, mesmo não relacionada com a sua formação académica. Há poucos dias, uma profissão bem considerada mostrou que 65% dos seus formandos querem emigrar, são os médicos que nos fazem falta. Empreendedorismo ou reabilitação? Observa-se o contágio da não reabilitação aos potenciais promotores de empreendedorismo.

A palavra central para fazer “reset” é a reabilitação, os novos alicerces do país. Uma parte da população, em idade activa, não tendo prevaricado legal ou criminalmente, é colocada numa zona de ninguém por ter estado na actividade económica durante a crise que persiste. O problema é tanto mais grave porque se torna numa característica comum na sociedade. Precisamos do ponto de partida, acabar com os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Deve-se permitir que o biscate e o paralelo regressem ao“contribuinte”. São muitas vezes a única solução. Portugal tem muito mais para aprender com os EUA do que com a Europa, nesta matéria. Os EUA não “expulsam” infortúnios da actividade económica. Mantêm as responsabilidades mas permitem, sem contágio, que um “player” de mercado possa produzir riqueza e pagar o mal-parado. Por aqui desejam o impossível, com a multiplicação do insucesso, o ciclo da pobreza e a multiplicação de juros sobre juros a quem nem tem emprego e acaba por emigrar. Portugal “investe” no mal-parado.

A reabilitação implica olhar para trás, avaliar as causas que evitariam a repetição dos erros e criar um plano que corresponda às necessidades. Levaria muitos “teóricos” a encarar as consequências das políticas de austeridade, apontando os reais responsáveis. Um foco sobre a máquina de triturar conhecimento, experiência e investimento.

As publicidades épicas dos parceiros do desastre, onde “é para avançar”, são uma caricatura sobre a celeridade dos processos. Empreendedorismo demagógico de TV que nada tem a ver com o mundo real ou empresarial.


Na zona da reabilitação estão os que conhecem a deturpação do sistema. Numa segunda oportunidade “limparão” pragmaticamente muitos dependurados no empreendedorismo que, só conferem despesa. São aqueles que estimam a ilusão novata de quem desconhece o sistema mas acredita em si, activa-lhes receitas. Um facto pouco popular no seio dos elementos do “risco zero”. O empreendedorismo, como o conhecemos para o comum dos mortais, nunca está conotado com a certeza. Os que se dedicam a promovê-lo são vigilantes dos negócios garantidos e seguros para uns e o empreendedorismo puro e arriscado para outros.

Intelectuais da transcrição, oradores de discurso alheio, teóricos que nos enfiam em tubos de ensaio, acabem com contabilidade cínica de saldo positivo entre a constituição de novas empresas e as que encerram. Evitam certamente os “mortos”, os “Vistos Gold”, os estrangeiros com melhores condições em Portugal do que os portugueses. Conhecem a existência dos “mortos-vivos”? Para além do investimento estrangeiro, em condições muito especiais, parte das novas empresas são de empresários falidos a lutar sob outros nomes. São aqueles que não podem “fugir” do país nem têm um subsídio de desemprego. O novato empreendedor, que vê isto, quererá entrar no ciclo?

Será este texto um delírio ficcional? Avance com calma, tubarões na costa.

Diário de Notícias do Funchal
Data: 01-07-2015

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domingo, 7 de junho de 2015

Mala-pata

ste artigo inspira-se na alegria de uma passageira ao ver a sua mala a cair no tapete rolante do aeroporto do Funchal e a sua redobrada emoção por vir ilesa. Um memorável feito da nossa aviação.

Há um “triângulo amoroso” entre a TAP, o “handling” e as seguradoras. Por norma, a boa gente é “ultrapassada”, não estão munidos de maldade suficiente para domar os ardilosos.

As mazelas nas bagagens denunciam que estas viajam mais por via aérea do que os seus donos. A TAP sabe mas amplia o conceito de “dano menor”. A TAP usa os limites da legislação para folgar as suas insuficiências que crescem por não receberem atenção.

As reclamações com bagagens são liminarmente evitadas na origem. O objectivo é tratar verbalmente e encaminhar o assunto para o e-mail “fale connosco” que, deveria ser substituído por outro mais sugestivo como “aguarde sentado”. As respostas não acontecem. É o terminus do processo onde claramente se aborrece o passageiro com inércia para desistir.

Os mais viajados transmitem a sua táctica: “nunca desista se tem razão”. Não deve sair do balcão de reclamações sem ter o registo do número de caso. Em tempos, se você tivesse uma apólice de seguro precisaria desse número para poder reclamar mas, chegamos à caricata situação dos seguros de viagem pouco ou nada contemplarem as malas.



Recapitulemos …

Ao balcão das reclamações, logo no arranque da conversa, fica a saber que a sua mala, que não serve para outra viagem, tem um “dano menor”. Incrédulo, insiste mas, nunca obterá um número de reclamação sem algum esforço. Quando entra no impasse, o teatro acaba. Quem o atende e toda a fila quer “despachá-lo”, sente-se tacitamente derrotado. É aí que entra o “fale connosco”, a saída airosa e sem consequências das reclamações na TAP. Se você acaso é mais vivaço e insiste, desde logo aparece a segurança para o intimidar, supostamente por alvoroço. Olham para a etiqueta a ver se é extra comunitário, se for … azar, intimidam logo para abrir a mala. Você fica furibundo porque sente-se uma pessoa decente a ser injustiçada, envolvida em cada vez mais truques de dissuasão.

O seu único momento de glória é arrastar a mala, sem uma roda, provocando um risco no mármore e um som que leva os dentes dos colegas à suprema aflição. Se alguém chamar a atenção, responda: “é um dano menor!” De preferência mostre os dentes, interpretarão que é um sorriso mas se pudesse dava-lhes uma dentada.

As reclamações são auditorias de borla, a companhia e seus “associados” podem tornar um mau momento como palco da sua credibilidade. Quando quiserem …


Diário de Notícias do Funchal
Data: 07-06-2015
Página: 13
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terça-feira, 26 de maio de 2015

O jogo da política: win-win-fail

ão tem regras, não tem cartas, não usa “bolas”, ou talvez sim, a inspiração do momento define tudo. É uma navegação por cabotagem com alguns cabos tormentosos. Retratar, só com um Van Gogh de pinceladas desconexas.

Lição nº1: os elegíveis devem usar a inocuidade populista, ser bons convivas, por vezes algo mais ... O Q.I. pouco importa, aliás em alguns casos é um “handicap”. Deve orbitar os centros de decisão com um nome de família que ajude, incrementando a proximidade à medida que se vislumbra um vencedor. Também há os vencedores desaparecidos, em cima, nas salas vip.

Joga-se sem pudor e pode ser por equipas. Uma equipa pode ter tantos cavalos quanto desejar, no fim da competição fica a “amizade” que tudo une. Com o “win-win” presente, podemos ver o mesmo jogador a opinar de forma contraditória, associar-se de forma irracional, numa paz alimentada pelo sucesso de quase todos. Também se pode usar o contraproducente, é um género para espertalhões, fazem-se difíceis. Jogam tudo no incómodo para lhes comprarem o silêncio.

Nunca se ofereça, insinue-se. Há um empecilho mental geral nos “croupiers”que o tornam num pedinte necessitado em vez de um veículo de sucesso. Se caiu nesse erro, sente-se e assista, guarde o sucesso. Lembre-se de que os jogadores inexperientes trazem instintos básicos e decisões errantes. O ego enfraquece como tensão arterial elevada.

O poder não é tonto e também vai fazendo o seu jogo. Nunca mostra as cartas, é mestre em bluff. Pergunta por todos mas quer saber de poucos. Cada um coloca as suas palas e acha que vai ser como pensa, a cenoura balança na frente, símbolo da ilusão que move montanhas, até ao momento crucial do voto e da vitória.

Depois avança a incomunicabilidade, o atrito, a ridicularização, a etiqueta do proscrito, as técnicas de afastamento para centrar a política aberta à sociedade civil aos míseros de sempre. Baralhar e dar de novo mas, parece que o baralho tem cartas repetidas. O povo sereno anda com um “déjà vu”. Os indesejáveis desaparecem como as reclamações na TAP, por exaustão.


De tanto repetir o modelo, os partidos tradicionais vão se esgotando perante uma opinião pública que aprendeu a ser tão cínica quanto eles. As sondagens receiam e os partidos cada vez “ardem” mais trunfos para obter resultados sofríveis.

Não é fácil começar a ser poder, parece um armazém depois de um sismo de 8.0 na escala de Coerência Modificada. Por entre prateleiras, cunhas, amizades, silenciamentos, carreiras, pedidos, jet 7, famílias, elites, ufa ufa ufa “setop”… sai um arranjo obtuso que não deve ser do agrado de ninguém, muito menos dos que sofrem as consequências.

Não fica espaço para gente sã, simplesmente sã, capaz e com ideias. Daqueles que o povo sereno gosta. Se existe, aponta-se com o dedo e algum lobo vai papar. Não é que esta gente não saiba estar em jogo, há simplesmente muitos mais que não mudam o chip de tão adictos e dependentes deste feitiço da destreza.

Olhamos para o relógio, é tarde, o jogo absorve o nosso tempo e o nosso espaço. Entretanto outro mundo correu em paralelo. De regresso encontramos mais um mendigo que ali não estava, uma nova montra com papel de jornal, uma moradia com um papel de tribunal, um casal que arrasta demasiadas malas com uns velhinhos a choramingar. Essa emigração, tão do agrado dos jogadores viciados, vai embora, leva os problemas de todos e não castiga com o voto. O jogo é um passatempo estéril perante tamanhos problemas.

Apesar de tanta patada, este jogo não é de futebol mas, todos dizem “a bola é minha”, sem colectivo para jogar. Assim definha Portugal, win-win-fail. Amigos de ontem, desconhecidos de amanhã; necessários anteontem, dispensáveis hoje; inimigos de há muito tempo, unha e carne desde há pouco; íntegros de sempre, idiotas por necessidade. Não admira este jogo ter tantos aficionados.
Se você não percebeu nada, provavelmente está de boa saúde ou então, por decreto, já não percebe português arcaico.

Diário de Notícias do Funchal
Data: 26-05-2015

Página: 15
Link: "O jogo da política: win-win-fail"

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domingo, 10 de maio de 2015

Pontinha de juízo

 Molhe da Pontinha, por cada vez que é dado à exploração, tem vindo a alterar a sua traça com a sobreposição de obras. Elementos históricos desapareceram. A sua vocação divergiu.

Aproxima-se uma nova intervenção, por um credenciado atelier de arquitectura e design de interiores. Depois do belamente inútil Terminal de Passageiros do Porto do Funchal, estremeço. Uma “renovação” de ideias poderia privilegiar o útil, prático e necessário, pondo fim a uma era de megalomanias. Vai surgir um Centro de Design com ligação ao mar. Acredito nas boas intenções mas … e a vocação?

A APRAM volta a ter a mesma equipa, presumo que agora vai ser diferente.
Nestas coisas lembro-me sempre do velhinho do Lugar de Baixo, a alertar os sábios engenheiros: “- Uolhe cu’mar ali bate d’rijo”.

O Molhe da Pontinha, em horário alargado, dava um excelente centro de promoção e de apoio à pesquisa no porto. Um bar náutico permitiria promover o convívio das sinergias, dos visitantes e das pessoas ligadas ao mar com uma vista livre. Com wireless teria as tripulações “grudadas” e os passageiros viriam atrás.

Ali deveria estar o Clube de Entusiastas de Navios com as suas actividades e a colecção de crestas, o futuro Madeira Cruise Club, um espaço dos spotters/ bloggers e dos destacados das redes sociais que promovem permanentemente o porto do Funchal de forma gratuita. O Molhe poderia acolher e fomentar os movimentos de fãs das companhias de cruzeiros nas suas acções.

O exemplo dos AIDA’s mostra o retorno e como as receitas a bordo aumentam com as despedidas. O Molhe deveria conter um centro de estudos capaz de tratar do grande acervo de fotos antigas com navios na baía do Funchal, identificando datas, navios e motivos especiais. Deveria acolher as visitas dos reformados do mar com as suas histórias e as colecções privadas para que pudessem ser vistas.

Com este conjunto de elementos se faria a integração nos circuitos do coleccionismo, saudosismo, informação e de fãs. Muitos famosos cá estiveram e deveriam ser dados a conhecer aos visitantes, criando charme e singularidade, num museu com a verdadeira vivência, expondo fotos, documentos, crestas e memorabilia.



O porto precisa de fazer as pazes com os funchalenses. Estas ideias promoveriam um movimento natural que traria a velha mística à Pontinha. Estaria garantido um manancial de eventos com elevada cadência e qualidade. A massa crítica estaria reunida para bem do porto, caso contrário, o futuro é de velhinhos com cajado.

Diário de Notícias do Funchal
Data: 10-05-2015

Página: 12
Link: "Pontinha de juízo" 

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