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sábado, 19 de agosto de 2017

RTP Madeira 2 de 2


(continuação, ler Crónica Sem Tabus do último Sábado 12-07-2017)

2010: Subdirector de conteúdos, Gil Rosa (chefe de serviço da RDP), é escolhido pela administração para subdirector de conteúdos (RTP) que acumula os trabalhos da programação, produção e informação. Com a chegada de Martim Santos, extingue-se a Direcção Adjunta de Informação, junta a informação com a produção, algo sui generis no universo RTP, provocando a perda da autonomia da redacção e, consequentemente, na informação. Mais tarde, consuma-se a vinda do subdirector Miguel Torres Cunha e Gil Rosa, com pouco tempo em funções, perde o cargo. Miguel Torres Cunha, saído do DN e próximo dos apetites empresariais interessados na privatização da RTP-M, compensa Gil Rosa mantendo-lhe as regalias da função sem as exercer. Realça-se uma gestão, no mínimo confusa, de uma estação pública sob ascendente dos privados. Na mesma altura, quiçá em desacordo mas com soluções pessoais em mãos, a RTP-M perde profissionais com mais de 30 anos de casa, Leonel de Freitas e Roquelino Ornelas, por reforma antecipada. Cada vez mais se troca  profissionais da área por elementos de confiança com experiência quase nula em rádio e TV. Destas acções nasce a “nova” RTP-M, onde não são permitidas horas extraordinárias aos funcionários para justificar a necessidade de contratar meios humanos e tecnologia em outsourcing, um meio caminho, um “publivado”.

2010/ 2011: O Grupo de Acompanhamento; Luís Miguel de Sousa decide escolher e liderar pessoas da sociedade madeirense para naqueles anos instituir o designado Grupo de Acompanhamento da RTP-M. Numa parcela da Televisão Nacional, com 40 anos de existência, parecem padrastos à força, na verdade é uma comissão instaladora que pretende interferir na RTP-M em favor da privatização. Sem qualquer suporte legal, o assunto chega à Assembleia da República pelas mãos dos então deputados nacionais pela Madeira Jacinto Serrão e José Manuel Rodrigues e a exposição mediática determina a extinção desta tentativa de obter o poder dentro da RTP-M. Tudo isto se produz numa RTP-M que nunca deixou de ser PÚBLICA.

2012: Ano do medo; Miguel Torres Cunha é incumbido de meter ordem na rebelião, emparelhando com Martim Santos a ver se é desta que privatizam. Começam a ocorrer reuniões com os funcionários em tom ríspido para se renderem às evidências e apoiarem um projecto empresarial para a RTP Madeira, caso contrário a estação poderia fechar. As intimidações são sugeridas com comparações sobre o que iam os funcionários perder se fossem para o mercado de trabalho dito “normal”. É o momento que coloca na opinião pública o que se passa dentro da RTP-M, fonte e início do meu estudo. Começam a surgir testemunhos de funcionários revoltados pelo trato recebido na imprensa, blogues e sindicatos. Quem de alguma forma sai, liberta-se e fala. O despedimento, sob alguma forma, entre empolado, artificial ou real existiu na verborreia da privatização.

2013: Fim do projecto de privatização; o ministro que tutela a RTP, Miguel Relvas, abandona o governo vergado por sucessivas polémicas e casos obscuros cedendo o seu lugar a Poiares Maduro, o que provoca o abandono da intenção de privatizar a RTP. Guilherme Costa é substituído por Alberto da Ponte e surge o Conselho Geral Independente com a finalidade de nomear a Administração e assim acabar com o vício da tutela em nomear os boys da política para a administração da RTP. Apesar da evolução do contexto nacional, entre a fase da tentativa de privatização e o arranque do Conselho Geral Independente, a RTP Madeira manteve, até hoje, a mesma Direcção promovida pelo interesse da privatização. Parece que se apostou em vencer por usucapião. A cada visita inócua de elementos da Administração nacional à região, a esperança acaba defraudada e a dialéctica beligerante acentua-se entre os funcionários que se acham públicos e os que se acham “privados” (novos, dóceis ou adaptados que olham para o seu emprego no outsourcing em condição precária). Sobrepõem mais confusões, não resolvem a actualização dos equipamentos e não determinam rumo, estratégias, quadros e lideranças. Só adicionam ruído.

A RTP Madeira é PÚBLICA e não há qualquer indefinição ou dúvida a este respeito, o que significa paralelamente que a actual direcção está deslocada no tempo, do princípio e do espírito de uma televisão de serviço público e não de serviço empresarial ou político que tantas vezes deixa transparecer. A RTP-M necessita de purgar ascendentes, permitir que o mérito vingue numa estação bem equipada, o brio surgirá e os vícios serão abafados. A estação regional, para que nunca mais se coloque a sua existência em causa, precisa de paz, de share e dos madeirenses ao seu lado. A história da RTP Madeira, sobretudo nos último 8 anos, é de cúpulas que, desejando poder, se esqueceram por completo de deixar trabalhar no interesse da Madeira, parece que se sabota até atingir os objectivos e depois logo se vê. A RTP-M perdeu valores antes do tempo, não necessariamente seniores acima dos 50 anos com reforma antecipada, por vezes gente da casa colocada na prateleira, formada e cotada para a TV. Há funcionários por despontar, só precisam de ambiente e condições. A RTP-M necessita de fechar o ciclo que vive sinistramente há 4 anos e cingir-se à linha da RTP Nacional e das recomendações do Conselho Geral Independente. Qual a dúvida?

Com a influência que a Venezuela tem na Madeira, ninguém pia sobre a sua vocação natural para a cobertura singular do que se passa naquele país e assim afirmar a estação? Tão fácil seria brilhar e ganhar respeito. Em determinados dias, a informação da RTP-M parece saber que existe um importante jogo no estádio mas decide fazer a cobertura sobre 2 ou 3 detalhes nos balneários. Enquanto o “mundo pula e avança” a RTP-M está na sua “alegre casinha”. Enquanto uns desesperam lutando por liberdade e democracia na Venezuela outros fazem o trajecto contrário na Madeira. O telespectador topa e desconsidera o serviço dos Donos Disto Tudo.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades. /Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança: / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades.” (Luís Vaz de Camões in Sonetos).



Diário de Notícias do Funchal
Data: 19-08-2017
Página: 28
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sábado, 12 de agosto de 2017

RTP Madeira 1 de 2


m dois Sábados abordarei a RTP-M pela evolução da conjuntura dos últimos anos, naturalmente a abreviar mas, suficientemente informativo, e espero que fiel, para sabermos como se suicida uma estação de TV. Os nomes são acessórios mas fazem parte do imbróglio que a RTP nacional, única responsável, estranhamente permite e não resolve.

A RTP-M encerra em si própria um excelente guião para uma novela em prime time. O ambiente tórrido que se vive na estação deve-se à circulação de nomes em vez de objectivos a bem do serviço público. Ao abordarmos os problemas da estação, chegaremos então a nomes com menos subjectividade nas acusações. A permissão da conjuntura é que dá importância aos nomes. Arranquemos com umas perguntas. Porque não estão os madeirenses incondicionalmente com a sua TV? Porque houve indiferença atroz quando se insinuou o seu encerramento? Quem falhou durante todos estes anos na actualização dos meios técnicos para trazer outro entusiasmo aos funcionários? Que objectivos coloca a RTP-M aos seus funcionários? Qual a idoneidade das lideranças? Tem um desígnio ou simplesmente não há moral? Trabalham para que share? Porque é que em algo tão exposto segue a tradição tachista na região? Porque é que quanto mais formado e experiente na área mais se “emprateleira”? Há 30 anos, a RTP-M abria a emissão às 18:00, a mesma hora dos nossos dias, excelente retrato da estagnação para uma TV que já deu “Bom Dia Madeira”.

Recuemos 30 anos na RTP-M. 2ª metade da década de 80 até 1997: Armindo Abreu, o Director que inaugura as novas instalações da RTP-M, no Caminho de Santo António (1995), reforça a produção regional, onde inclui mais desporto, e aumenta o número de transmissões em directo de eventos. Em 1997, o Telejornal das 21 horas surge com notícias regionais a par da actualidade nacional e internacional. Um novo noticiário entra para a grelha, o das 14 horas, o programa “Alpendre” também.
1997-2003: Carlos Alberto Fernandes conhecia profundamente a RTP Nacional e chegou à liderança depois de ser subdirector de Armindo Abreu. Foi o director técnico do canal Tele Expo que juntou a RTP e a SIC para a transmissão dos eventos da Expo 98. Esta posição privilegiada deu-lhe a oportunidade de trazer câmaras digitais e equipamentos de montagem para a RTP-M, parte do espólio da Tele Expo. O Telejornal das 21 horas passa a chamar-se Jornal das 21, para se diferenciar da produção do continente, e dedica-se integralmente às notícias regionais. Com as novas condições técnicas surgem os programas de desporto Estádio (diário) e o Fora de Campo (semanal).
2003-2005: Luís Calisto, vindo da imprensa, deu prioridade às notícias cobertas pela estação para obter diferenciação. A produção regional dedica-se a novas áreas como, por exemplo, a pesquisa sobre os Verões do passado, documentários e outros programas de informação gravados.
2005-2010: Leonel de Freitas lança o Bom Dia Madeira, inovando com a abertura da emissão às 7:30. Promove debates da actualidade no Telejornal Madeira após a leitura das notícias. É uma altura de lançamento de novos programas.
2010 - ... : Martim Santos, reduz as horas de emissão, com abertura às 17 horas no Inverno e às 19 horas no Verão com encerramento entre as 23 e as 00:00 horas. Uma TV com 4 a 6 horas de emissão que naturalmente extingue a produção fora desse horário (ex. Bom dia Madeira e noticário das 14 horas). Cria novos programas de pós produção e aumenta a duração dos programas gravados e em directo. Adiciona novos formatos de Verão.
Os directores profissionais de rádio e de televisão que assumiram a chefia da estação foram Armindo Abreu, Carlos Alberto Fernandes e Leonel de Freitas, os restantes directores e alguns quadros de confiança fizeram comissões de serviço com diversas origens: exército, EEM, hotelaria e imprensa escrita. Todos estes cargos vagueram ao longo dos anos por um parecer vinculativo do Presidente do Governo Regional (GR) e consequente decisão final do Conselho de Administração da RTP até ao Governo da República Durão Barroso/ Santana Lopes. Por esta altura passa a decisão simples do Conselho de Administração até aos nossos dias.
2010: Guilherme Costa tinha como vice-presidente José Marquitos, bem relacionado com empresários e políticos da Madeira, que os dá a conhecer ao seu presidente durante as férias, no Verão de 2009, no Porto Santo. Este é o primeiro momento do ascendente de Luís Miguel Sousa sobre a RTP-M através da amizade e proximidade com o então presidente da RTP. É também nesta ocasião que a RTP-M vislumbra um futuro mais indefinido. A RTP nacional vivia, na altura, uma possível privatização, questão que dividia o governo de coligação PSD/CDS em funções na altura. Tutelado pelo ministro Miguel Relvas, Guilherme Costa promoveu contactos com empresários em Angola e na Madeira que mostraram apetite por uma eventual privatização do canal RTP da Madeira. A RTP-M era Pública ou privada? Nada havia mudado, era pública mas, com exposição privada. Sem qualquer decisão tomada pela RTP nacional, a tentacular vertente privada evolui tacitamente a partir dos empresários da Madeira. Os funcionários surpreendidos pressupõem que algo “combinado” ocorre sem valor legal. Martim Santos, jovem ex quadro do Grupo Pestana e co-explorador do Café do Teatro com seu padrinho, assume funções na RTP Madeira, sem experiência em empresas de comunicação ou TV, o que muitos funcionários da casa, bem mais preparados, sentem como um ultraje e uma ingerência. É o momento em que se acentuam os desacordos, uns vendem-se outros não, arranca uma era de calculismos e sobrevivências, ainda para mais com um impávido e apático Conselho de Administração que não parece de confiança. Os funcionários consomem-se num silêncio e a estação definha a cumprir o horário.
(contínua no próximo Sábado)




Diário de Notícias do Funchal
Data: 12-08-2017
Página: 32
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sábado, 1 de julho de 2017

Bilhar às 3 tabelas

“Nem mais nem menos”: Num bem conseguido programa da RTP Madeira, um impetuoso deputado do PSD na ALR desferiu alguns ataques à Renovação mostrando um sui generis usufruto da situação ficando só com as partes boas. O deputado revelou a sua iniciativa nas internas do PSD-M para esclarecer com António Armas o que se tinha passado e em que condições regressaria caso ganhasse. Em posse do conhecimento, recebeu uma singela pergunta do moderador: - Transmitiu isso ao governo? Ao qual retorquiu: - Ninguém me veio perguntar. Ao acusar a inépcia da Renovação, evidenciou também que os egos são demasiado fortes, revelou desunião, falta de colaboração para objectivos comuns, sintomas muito mais fortes do que a missão que lhes foi concedida para representar o povo em seu benefício enquanto deputados ou governantes. O eleitor observa e arfa. Entretanto, na última Terça-feira, o DN noticia a autorização da Comissão Europeia ao apoio público à operação da linha ferry entre a Madeira e o continente, uma vitória da Renovação com mais episódios positivos a caminho da qual o deputado se pôs de parte quando teve dois anos para brilhar positivamente.

ALR: Longe vão os tempos do início do mandato onde o embevecimento pela regularização do trato com moderação se confundia com o bom funcionamento da ALR. Precisamos de deputados maduros e aplicação para mais acções legislativas e fiscalizadoras, “objecto social” da ALR. Nesta semana, só hoje, dia inconvenientemente assinalado, houve plenário. Foi azar, um fim de semana sem 4 dias. Nas duas semanas precedentes houve um plenário das 9 às 13h. 4 horas por semana. Na anterior houve dois plenários, terça e quarta-feira, das 9 às 13,  8h numa semana. As Comissões Parlamentares são sempre a despachar, 6 ou 7 deputados que por vezes nem demoram meia hora. Todos coniventes com a leveza do part-time que dá jeito para ter influência, em muitos casos para ter conhecimento em primeira mão, usando-o na actividade privada. Quantas vezes não se diz na ALR o que se sabe para proteger um objectivo profissional ou pessoal? Estamos tão evoluídos social, estrutural e parlamentarmente para este ritmo? Os deputados fazem mais trabalho partidário do que parlamentar, o partidário é que garante o sustento, poucos se dedicam aos verdadeiros objectivos da ALR. A qualidade governativa é também espelho da ALR porque não cumpre a sua missão de fiscalização parlamentar e presta vassalagem legislativa, entre um partido dominante amorfo e uma oposição que deveria estar a brilhar muito mais. Poderiam estar a fazer a política mais gostosa, a que não tem poder mas vence. Ou por uma liderança musculada do GR do passado ou pela profusão de gente impreparada na actualidade, o primeiro órgão da Autonomia está há décadas assim. Outro pormenor enganoso é a ALR dizer que gasta menos. Sim, as subvenções vitalícias dos deputados e as indemnizações reduziram, as dotações aos partidos mingaram, e as despesas de funcionamento porque são omitidas quando deveriam ser tão públicas como as da Assembleia da República? Partidarismo governamental? Quando muitas vezes se acusa o 4º poder por não fazer jornalismo de investigação, a justificação habitual relaciona-se com a falta de capacidade para alocar jornalistas por longos períodos a averiguar quando a internet torna os leitores avessos ao pagamento de notícias mas, os deputados não sofrem deste problema, a estrutura é exactamente para cumprir com a fiscalização. Por inúmeras vezes, são os jornais a propiciarem um tema para o debate.

Na passada semana aconteceu: Uma deputada da Madeira na Assembleia da República defendeu e bem, a situação dos docentes da região que são excluídos do concurso interno a nível nacional. Puxando o filme atrás, constatamos a razão pela qual alguns dos docentes desejam concorrer ao continente. Na reestruturação da carreira docente cometeram-se erros, que foram reportados e mereceram a devida correcção do Ministério da Educação. Sucede que essa correcção nunca foi aplicada na RAM e alguns docentes apresentaram queixa contra a Secretaria Regional da Educação, mais concretamente contra a Direcção Regional de Recursos Humanos e Administração Educativa, por não lhes permitir beneficiar de um direito consagrado no Estatuto da Carreira Docente da RAM, Decreto Legislativo Regional número 20/2012/M, publicado a 29 de Agosto de 2012, relativo ao reposicionamento na carreira docente. De acordo com o Princípio da Continuidade Territorial previsto no artigo 10º do Estatuto Político-Administrativo da RAM, o Estatuto da Carreira Docente dos professores da RAM é igual ao Estatuto Nacional, no que respeita a índices remuneratórios, sob pena de inconstitucionalidade, situação confirmada pelo Acórdão número 239/2013 do Tribunal Constitucional, publicado na 2ª Série do Diário da República, a 5 de Junho de 2013 relativo ao Processo número 152/12 que deu razão aos docentes da região. Neste momento o GR não tem razões para protelar mais. Entretanto, advogados também deputados aproveitam-se desta situação “trigo limpo, farinha amparo” para ganhar uns cobres sabendo que o sucesso dos processos em tribunal são garantidos por aquele Acórdão. A senhora deputada pode aproveitar a embalagem e instruir o Secretário Regional da Educação para cumprir o Acórdão sem mais truques.

Assim, passando pelo bilhar grande joga-se às 3 tabelas numa falta de eficácia presa a egos, à parcialidade política, à ambiguidade e aos interesses pessoais em cargos públicos ou de representação. Estamos a renovar com gente sem escola que bebe estas atitudes. A abstenção, mais do que comodismo, é não se rever nem acreditar. É não ver ideias com futuro ou desígnios, só batalha campal e, no mínimo, a falência moral das instituições.



Diário de Notícias do Funchal
Data: 01-07-2017
Página: 28
Link: Bilhar às 3 tabelas
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